Construção de uma Progressão Pedagógica para o Ensino do Handebol Através do Jogo – o Ato Motor e as Estruturas Motrizes

No artigo anterior citei alguns pontos relativos ao desenvolvimento de um processo pedagógico para o ensino do handebol, destacando a ‘certa’ inveja que alimento do ensino pautado em premissas tecnicistas, por este método de ensino facilitar em muito ao professor enxergar o ‘de onde começar’ e o ‘para onde deve ir’ em seu processo tradicional de ensino.

Porém, essa ‘invejinha’ é deixada de lado quando, ao analisar que a forma de ensino tradicional acaba por fazer do jogo de handebol algo resumido em partes descontextualizadas de seu todo, fator que impede que a aprendizagem seja bem ministrada.

Ou seja, apesar do tecnicismo facilitar que o professor crie uma linha coerente de ensino  – dentro dos moldes tecnicistas –, ao analisarmos os frutos advindos desse processo de ensino, verifica-se lacunas muito grandes no que diz respeito à capacidade do aluno em resolver os problemas inerentes ao jogo.

Logo, um desafio pessoal que faço questão de compartilhar nesse site, é o de tornar fácil a compreensão de como desenvolver uma progressão pedagógica no ensino do handebol através da idéia do ensino por jogos.

Jogos, sim! Pois jogando, mantemos intacto algo primordial: a unidade complexa do jogo.

Ao repartir o jogo em pedaços, fragmenta-se essa unidade complexa, de forma que se aprende a passar, depois a saltar, depois a arremessar, depois a driblar. Sempre um depois do outro, sem preocupar-se com a unidade que forma o jogo de handebol.

Mas e a intenção? Onde está a necessidade de o aluno/atleta fazer cada um desses atos dentro dessa perspectiva?

Daí a importância em jogar, pois jogando, garante-se que todos os elementos inerentes ao jogo de handebol sejam manifestados de maneira sistêmica, dentro de uma unidade complexa – o jogo. Assim, passar será uma necessidade, e não uma tarefa. Driblar será uma forma de resolver um problema no jogo, e não um mero ato de um repertório motor adquirido pelo aluno de maneira fragmentada.

Aqui, entramos numa discussão muito importante para entender como o jogo torna capaz a aprendizagem.

Enquanto o modelo de ensino tecnicista prima pelo ensino da técnica como um ‘ato motor’, jogando criamos ‘estruturas motrizes’.

‘Ato motor’ e ‘estrutura motriz’. Parecem a mesma coisa, mas não são!

A Estrutura Motriz e a Motricidade Humana

Ao falar em ‘ato motor’ temos uma realidade impregnada de algo que há algum tempo a educação física critíca e busca deixar para trás. ‘Ato motor’ nos remete ao pensamento dicotômico ‘corpo/mente’ ou seja, ‘ato motor/intenção em agir’. É como se agir fosse algo desconectado de um contexto, de uma intenção. Como se restasse ao professor de educação física educar um corpo, despreocupado das intenções do ser que ali age.

Ao pensarmos única e exclusivamente em ensinar os ‘vários tipos de passe’ estamos, sem dúvida, ampliando o repertório motor de nosso aluno/atleta. Porém, por ensinarmos de forma fragmentada do se contexto (de sua unidade complexa), esse gesto limita-se em si mesmo. O aluno passar por passar, não há ali significado, não há ali pressões e dificuldades emergenciais. Ensina-se o corpo a fazer um gesto, mas esse gesto não possui uma finalidade advinda de uma intenção do aluno.

Quando trazemos um jogo, cujas regras enfatizem, por exemplo, a manutenção da posse da bola através da realização de passes, enfrentando uma equipe que busca recuperar essa posse de bola,  e assim, cria-se demandas cognitivas, intencionais e significativas, que devem ser resolvidas no cerne do jogo.

Em jogos como esse, passar é uma ação intencional e não mais um ato, simplesmente. Ao agir, o aluno faz com que um ato motor (habilidade) seja significado, integrando um ato à intenção do ser que joga, trata-se de uma ação realizada dentro de um contexto de pressões e de problemas. Temos aí o desenvolvimento das ‘estruturas motrizes’, superando a visão dicotômica de que a educação física deve exclusivamente ‘educar o corpo’ e não o ser que age.

A diferença entre ‘ato motor’ e ‘estrutura motriz’ está exatamente nessa reflexão, e pode ser melhor compreendida através dos conceitos norteadores da Ciência da Motricidade Humana, criada pelo filósofo Manuel Sérgio.

Segundo o próprio Manuel Sérgio, a motricidade humana estuda o ser humano em movimento intencional, procurando superar e superar-se. Logo, a motricidade (oriunda do radical ‘motriz’) garante o olhar aos fenômenos humanos visando compreendê-los como sendo dotados de intenção, significado e visando superação.

Ao pensar um ensino significativo ao nosso aluno/atleta, temos que possibilitar o desenvolvimento de ‘estruturas motrizes’ que formarão um grande repertório de ações para resolver os derivados e irredutíveis problemas do jogo a ser jogado (em nosso caso, o handebol); algo impossível se pensarmos o ensino tecnicista, mas tangível ao se criar jogos que estimulem a criatividade de nossos alunos/atletas para que resolvam os problemas do jogo, sempre orientados por intervenções do professor num processo de “descoberta guiada”, como bem conceitua José Mourinho, quando ele procura falar sobre uma abordagem interacionista de ensino.

Espero ter esclarecido porque o jogo deve ser enfatizado em um processo de ensino, através da diferenciação dos conceitos ‘ato motor’ – enraigado pelo paradigma dicotômico ‘corpo/mente’, comum da visão de ensino tecnicista – e ‘estrutura motriz’ – cujas origens podem ser observadas na Ciência da Motricidade Humana, do professor e filósofo Manuel Sérgio, a qual busca entender a ação humana como algo dotado de intenção, finalidades e visando suprir necessidades, capaz de ser atingida quando um gesto é realizado dentro de seu contexto, dentro de unidades complexas, como os jogos o são.

No entanto, não basta aplicar um um jogo qualquer para se garantir aprendizagem. Os jogos devem ser:

  1. Escolhidos de acordo com a fase de aprendizagem;
  2. Organizados numa perspectiva curricular; e
  3. Orientados dentro de um processo pedagógico.

Nos próximos artigos, estarei falando sobre a ‘escolha dos jogos’, para que sejamos capazes de escolher os tipos de jogos que estaremos utilizando em cada uma das fases de desenvolvimento de nossos alunos/atletas, para que esses jogos sejam significativos ao grupo com o qual trabalhamos.

Até a próxima,

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3 thoughts on “Construção de uma Progressão Pedagógica para o Ensino do Handebol Através do Jogo – o Ato Motor e as Estruturas Motrizes

  1. Pingback: Fique por dentro Handebol » Blog Archive » Construção de um caminho pedagógico para o ensino do handebol …

  2. Gostaria de saber onde eu posso estar obtendo tudo sobre handebol (literaturas para que eu possa realizar meu tcc que falo sobre a iniciação do handebol para rianças de 07 a 10 anos .

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