O Jogo IV – Lúdico e Sério, isso é possível?

Para muitos que abordo ao falar sobre o ensino do handebol com base no jogo como exclusiva ferramenta pedagógica, isso parece um equívoco, pois a visão zobre o jogo comumente limita-se sobra sua característica de diversão e ludicidade, desprovido de um caráter sério, que para muitos é considerado um elemento essencial para que a aprendizagem seja consumada.

Não questiono que a ausência de seriedade num processo de ensino aprendizagem é algo que minimiza as chances de que a aprendizagem seja assimilada pelos alunos/atletas que se envolvem em nossas aulas.

Logo, admito que para ensinar deve haver seriedade por parte de alunos e professores, pois a atitude séria possibilita maior atenção para que o objeto de aprendizagem seja realmente significado como um conteúdo a ser aprendido.

O jogo, por sua vez, é um elemento típico de liberdade, ludicidade e prazer, caracterizando-se, aparentemente, como algo típico para o relaxamento, a diversão e a livre adesão.

No entanto, trago uma pergunta: Jogar bola nas ruas, garante aprendizagem? Não são raros os relatos de grandes jogadores de diversas modalidades que descrevem as experiências vividas na rua como algo realmente significativo.

Um dos maiores jogadores de handebol, Jackson Richardson em depoimento feito em 1998 destaca que:

“…eu comecei jogando em reuniões. Não era ali importante ser uma estrela ou profissional em algum esporte, ou impreterivelmente aprender alguma coisa. Eu queria ter alegria, divertimento, provar de tudo. Na minha cidade as crianças se reuniam todos os dias na praça, na praia e em outros lugares, e sempre jogávamos…” (KRÖGER E ROTH, 2005, p.08)

João Batista Freire, em sua tese de livre docência escrita no ano de 2001, chamada “Investigações Preliminares sobre o Jogo”, traz reflexões sobre a “Pedagogia da Rua”, mostrando a importância que os jogos de uma chamada “cultura de rua” possuem na formação da inteligência para o jogo.

No livro “Escola da Bola” de Christian Kröger e Klaus Roth, eles destacam que um dos objetivos dessa obra é procurar, de alguma forma, resiginificar de maneira sistematizada as experiências, cada vez menos potencializadas, de prática de jogos de rua, com diversos estímulos de inteligência tática, habilidades e capacidades coordenativas ali vividas com muita intensidade.

Logo, essas e outras experiências e propostas de trabalho fundamentam a capacidade que o jogo possui de gerar aprendizagens.

No entanto, ao observarmos o fenômeno jogo, percebemos que há nele além da presença da ludicidade e alegria, algo aparentemente contraditório: um jogo só é jogo se ele for jogado com seriedade.

Essa frase é que sempre uso como exemplo para demonstrar o quanto o jogo é uma ferramenta pedagógica por excelência, inquestionavelmente.

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“Um jogo só é jogo se ele for jogado com seriedade”

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A seriedade do jogo pode ser observada quando vemos um pequeno grupo de crianças a jogar. Enquanto o jogo, que os diverte e os leva para um mundo suspenso da realidade, se desenrola, existe naquele momento um grande grau de seriedade em jogo.

Há regras a serem respeitadas, há uma divisão equilibrada dos componentes das equipes, pois senão o jogo não tem graça – nem que a divisão da equipe seja o famoso: “eu contra todos”.

Quando a seriedade é deixada de lado, o jogo acaba.

Imaginem um jogo de pega-pega, no qual o jogador que “bate-cara” – ou o pegador do jogo – fica somente guardando caixão?

Logo, na segunda rodada, surge a regra subjetiva: “não vale guardar caixão”

Se na segunda rodada o pegador que bate-cara continua guardando caixão – mesmo que seja outro jogador nessa função – os jogadores perderão o interesse no jogo, pois um dos elementos sérios do jogo – a regra de que não vale guardar caixão – acaba sendo não cumprida e o jogo cai num caráter de desinteresse pelos jogadores, sendo o fim desse processo também o fim do jogo.

Porém, se essa regra passa a ser obedecida por todos os jogadores do jogo, estes podem jogar horas a fio a mesma manifestação sempre com total entrega a ele.

Se pensarmos em jogos de bola, imaginem que existe um grupo está jogando pique-bandeira e no qual um jogador que adentra ao campo adversário tentando pegar a bandeira é tocado, mas não fica congelado, alegando que não foi tocado. Será que o jogo irá continuar? Acredito que após os jogadores discutirem, se não houver acordo entre as partes – algo extremante sério – os jogadores tornam-se agora ex-jogadores, pois ninguém mais se interessará em jogar o pique-bandeira.

Outro exemplo: quando um jogador começa a dar relaxo no jogo – imaginem um jogo de bolas com os pés – seja ele qualquer que imaginemos em que duas equipes procuram marcar pontos umas contra as outras, através da tentativa de atingir a meta adversária com a bola – e um dos jogadores, ao invés de tentar jogar com o obejtivo de marcar pontos, fica apenas tentando jogar a bola entre as pernas do seus advesários? Seus companheiros, tentam jogar com seriedade – eis ela aqui novamente – mas o outro, apenas fica tentando dar firulas e joagr a bola entre as pernas.

E surge a frase: “você está dando relaxo, não jogo mais!”. Quantos não passamos por isso, jogando qualquer jogo que seja. Quando “alguém da relaxo” o caráter da seriedade é deixado de lado, o jogo perde uma de suas principais características. O jogo acaba.

E o maior detalhe de tudo isso é que, na maioria dos jogos de bolas que são criados pelos próprios alunos, não há árbitros, e geralmente, quando há algum ponto que possa acabar com a seriedade do jogo, busca-se o acordo, novamente há seriedade no jogo, logo, há garantia de que o jogo, também lúdico e prazeiroso seja jogado.

Encarar que algo pode ser lúdico e sério, divertido mas com necessidade de comprometimento para existir, parece estranho, não?

Isso ocorre, pois estamos acostumados a encarar os fenômenos de nosso cotidiano numa perspectiva dicotômica, ou seja: “ou é sério, ou é diversão”. Ou seja, ambos não podem caber num mesmo ambiente.

No entanto, o jogo não pode ser compreendido sobre a perspectiva da dicotomia, como destacado a cima, mas sim, encarado dentro de uma perspectiva dialógica (complexa) (MORIN, 2005).

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A dialógica supera a dicotomia e a dialética. Numa perspectiva dialógica, seriedade e diversão podem co-habitar num mesmo fenômeno, no qual, mesmo elementos tradicionalmente antagônicos podem conviver e só graças a essa convivência podem garantir a existência de um determinado fenômeno, como o jogo, por exemplo.

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E é tradicionalmente (dicotomicamente) que encaramos nosso trabalho como professores e, infelizmente, também o esporte (que é um conteúdo a ser ensinado aos nossos alunos e atletas).

Análise Pedagógica

Considera-se que para aprender esporte, e no nosso caso o handebol, a seriedade deve imperar no ambiente de aula, de maneira única e exclusiva.

Sem seriedade não há aprendizagem – sem dúvida – mas no jogo, seriedade e diversão coexistem harmoniosamente.

Aliás, no jogo, um não existe sem o outro, senão não temos ali, jogo (complexidade).

Para compreender essa perspectiva, devemos superar a visão dicotômica e fragmentada com a qual estamos acostumados a conviver, e passar considerar que os fenômenos humanos são dotados de um caráter complexo.

Dentro dos estudos da complexidade, os antagonismos podem ser elementos indissociáveis para um mesmo fenômeno complexo.

Assim é o jogo. Ele é um fenômeno complexo no qual elementos antagônicos se complementam de forma que essa característica é que garante que o jogo seja jogo.

Se uma atividade for séria, apenas, ela não é jogo.

Se uma atividade é divertida, apenas, ela também não é jogo.

No entanto, uma mesma atividade, que em muitos casos não é séria ou mesmo em outros não é divertida, pode, através de sua resignificação, tornar-se jogo, desde que a seriedade e a ludicidade sejam incorporadas pelos jogadores.

Isso pode acontecer em nossas aulas de handebol. Se rolarmos a bola, simplesmente, teremos ali muita diversão, muita alegria, porém, nenhum comprometimento. Ouviremos de nosso alunos em muitos momentos perguntas como: A bola saiu? Valeu o gol? Isso pode professor?

Essa perguntas existem em ambiente de aula, pois os alunos esperam que nós encaminhemos para eles as regras que devem ser obedecidas. Eles clamam por elementos que tornem o jogo sério, para que eles, definitivamente, possam jogar.

Agora, se o professor não os orienta e os deixa ali, sem essas respostas, não poderemos garantir que haverá ali um real ambiente de aprendizagem, pois será que haverá seriedade por parte de nossos alunos, quando eles estiverem tentando jogar?

O mesmo ocorre quando em nossa aulas, fundamentamos nosso planejamento em atividades cuja seriedade seja exagerada.

Aulas com dinâmicas tecnicistas nada tem de prazeroso. Não há problemas para serem resolvidos, não há desafio e, portanto, não há apelo ao lúdico.

Logo, aulas/treinos como essa, que primam única e exclusivamente pela seriedade na execução até pode ensinar algo, mas esse algo, de tão desconfigurado do ambiente de jogo, acaba não sendo transportado para o momento em que o aluno pode jogar o handebol. E quando ele pode viver o esporte, os professores acham que o aluno não aprendeu nada – isso realmente acontece – por culpa do próprio aluno que não fez direito as atividades, mas nunca olha para a organização de suas exclusivamente sérias e fragmentadas aulas.

Logo, se no jogo sou capaz de ter seriedade e alegria, por que não utilizá-lo como a principal – eu defendo até mesmo como a única – ferramenta de ensino do handebol?

A seriedade e o prazer do jogo garantem mais do que a simples aprendizagem de algo, mas sim a significação daquele jogo como algo que realmente me trará benefícios de ordem da inteligência para o jogo, fator esse que devemos realmente buscar em nossas aulas de iniciação e aperfeiçoamento em handebol.

Bibliografia

FREIRE, João Batista. Investigações preliminares sobre o jogo. Tese de Livre Docência. Faculdade de Educação Física, Unicamp, Campinas, 2001.

HUIZINGA, Johann. Homo Ludens: o jogo como elemento de cultura. São Paulo: Perspectiva, 1999.

KRÖGER, Christian e ROTH, Klaus. Escola da bola: um ABC para iniciantes nos jogos esportivos. Phorte. 2ª ed. 2005.

MORIN, Edigar. O Método 5: a humanidade da humanidade. 3. ed. Porto Alegre: Sulina, 2005.

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One thought on “O Jogo IV – Lúdico e Sério, isso é possível?

  1. amigo (s) estou muito contente de ver esta iniciativa ser tomada por pessoas simples a comprometidas com o dedesvolvimento,tenho visto aigumas pedagogias serem dessenvolvidas dentro do handball e por exemplo (p.m.e-p.m.a.a-p.m.d.t).
    Pedagogia de modelos de execulção
    pedagogia de modelos auto adaptados
    pedagogia do modelo de desisão taticas. Estes modelos de pedagogias eu estou vivenciando na frança e acredito que agora podemos conversar e versar sobre os bons ventos da iinbformação, um abraço.

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