Uma Possível História do Handebol

Ao se pensar no título desse texto, geralmente, remete-se a uma lógica histórica tradicional, enquadrada em estudos cronológicos sobre a origem e a atual forma de se jogar o handebol.

Alguns estudos consideram a origem do handebol nos jogos antecessores da modalidade, cuja característica principal seja o transporte de um implemento (geralmente uma bola) com as mãos (existem muitos exemplos de jogos co-existentes em diversas partes do mundo e em diversas épocas). Jogos esses que apesar dessa semelhança fundamental carregam consigo muitas diferenças de regras, manifestações, formas de jogar e etc..

Outros estudiosos, no entanto, centram seus estudos no fenômeno contemporâneo, considerando que o handebol só pode ser considerado em sua história a partir da adaptação de um grande jogo de campo (o handebol de 11 – sugestivamente uma adaptação do futebol) para o ambiente fechado dos ginásios esportivos, tendo este momento como o ponto de partida para compreensão de sua evolução histórica, como destaca a professora doutora Heloísa Helena Baldy dos Reis. [veja mais sobre a história do handebol clicando aqui]

Faço, no entanto, uma consideração fundamental, que a meu ver, reconsiderará esse ponto de vista hegemônico aos estudos sobre a história do handebol.

Existem, do ponto de vista das ciências biológicas, duas formas de se enxergar a evolução e, portanto, a história de um mesmo fenômeno.

Uma dessas visões remete-se a compreender a história a partir da um ponto de vista evolutivo desde a origem de um determinado fenômeno. É como se, na busca de compreender o ser humano moderno, fosse estudada toda a evolução das espécies até ser encontrado o primeiro hominídeo e a partir desse ser ter-se o início dos estudos sobre toda a espécie humana em relação à sua evolução junto ao meio em que ele (sobre)vive. A essa visão dá-se o nome de filogenia.

Outro modelo pode compreender o fenômeno dentro de outro ponto de vista, pautado, por exemplo, na evolução de um ser vivo dentro de seu período de vida. É como se fosse estudado um ser humano desde seu desenvolvimento enquanto zigoto até sua velhice e sua morte. A essa visão dá-se o nome de ontogenia.

Vejam que interessante. Pode-se estudar o ser humano a partir de dois pontos de vista históricos: sua evolução enquanto espécie e sua evolução em quanto ser individual.

Ao criar o título desse artigo, inicialmente tem-se a impressão de que aqui seria contada a história do handebol que todos estamos acostumados a procurar – sua origem, país, data e outros dados. Ou seja, tratar a história do handebol dentro de uma perspectiva “filogenética”. Ou melhor, filo-histórico.

No entanto, será tratada aqui a visão sobre a modalidade pensada sob o ponto de vista das novas tendências da pedagogia do esporte, fundamentando o pensamento de “quais são as etapas que envolvem a iniciação esportiva do handebol”. Ou seja, como é que o handebol deve surgir na vida de uma criança em sua etapa de iniciação até o início da fase de especialização. Trata-se de um corte transversal na história do desenvolvimento da modalidade, vendo-a sob um ponto de vista “ontogenético”. Ou melhor, onto-histórico.

Quando se fala, então, de uma “possível história do handebol” sob uma perspectiva onto-histórica, será travada aqui uma batalha conceitual entre a visão tradicional e a visão emergente.

Sob o ponto de vista tradicional o ensino do handebol deve ser feito com base na modalidade oficial, pois o handebol só pode ser entendido como handebol se encarado como o resultado de toda evolução filo-histórica que a modalidade sofreu (seja acreditando ser o handebol um esporte contemporâneo, ou mesmo como uma modalidade com outros jogos que deram origem a ele ao longo da história, pois o que importa é o resultado final de todo esse processo – o próprio handebol).

Logo, sob uma visão onto-histórica a visão tradicional pouco se importa com a visão filo-histórica do handebol. Descarta-se a evolução “macro” da modalidade e considera-se que o ensino deve basear-se única e exclusivamente no desenvolvimento da modalidade já “evoluída”.

Sob um ponto de vista de paradigmas emergentes (como as novas visões sistêmicas e complexas) isso muda bastante.

O handebol passa a ser lembrado como, antes de tudo, um jogo que pertence a uma gama muito grande de “famílias de jogos” (ver em Scaglia, 2003).

O handebol possui semelhanças e diferenças de muitos outros jogos, que também se assemelham e se diferenciam de outros jogos que se assemelham e se diferenciam do handebol. Complicado né? Mas pode-se ilustrar melhor essa idéia.

O handebol e o basquete possuem grande similaridade em termos de forma de transporte da bola (através de sua manipulação), porém, grande diferença quando analisados do ponto de vista de suas regras sobre, por exemplo, a anotação de faltas – enquanto que no handebol a falta é um elemento importante para dar “graça” ao jogo (ver aqui), no basquete, o fato de o alvo ser por si mesmo um elemento complicador do jogo (e que “dá graça” ao jogo por si só), as faltas passam a ser mais severamente punitivas e restritivas.

Enquanto isso, o basquetebol tem muita semelhança com jogos que se cria em aulas, como o jogo de alvo-móvel, no qual o aluno que é o alvo-móvel segura um arco sobre a cabeça. Porém, caso o jogo seja feito com uma bola menor, a forma de transportá-la e finalizar ao alvo será muito diferente do basquete, no entanto, semelhante ao handebol.

Logo, os jogos acabam por criar interações entre eles, de forma mais ou menos positiva, porém, todas com grande importância para a aprendizagem do handebol.

Os jogos exemplificados são pertencentes a uma mesma família de jogos de bolas com as mãos, logo, forma uma espécie de família cujos jogos serão muito bons de serem vividos para que o handebol, que também é um jogo, seja aprendido.

Porém, será que há semelhanças entre jogos de famílias diferentes, para que o handebol seja aprendido a partir da relação dele com essas outras famílias?

Ao pensar um jogo da família de jogos de bolas com os pés, tal como o bobinho jogado com os pés em relação ao handebol, pode-se fazer alguma analogia entre ambos os jogos para que um seja importante na aprendizagem do outro?

Se a atenção for dada a alguns elementos relacionados à dimensão estratégico-tática há muitas semelhanças entre o handebol e o bobinho jogado com os pés, como por exemplo, o fato de o jogador que é o bobinho ter que criar estratégias para induzir os adversários a passarem a bola para um determinado jogador que ele deseja, para assim poder recuperar a bola e deixar de ser bobinho, ou mesmo criar estratégias para enganar os passadores e poder interceptar um passe aparentemente fácil de ser realizado.

Quantas vezes, estratégias como essa não são utilizadas num jogo de handebol, por parte dos defensores? Vejam, portanto, que há muitas semelhanças também entre jogos aparentemente diferentes, assim como há muitas diferenças entre jogos aparentemente semelhantes, pois as semelhanças devem ir além das questões técnicas, mas ater-se também às questões lógicas dos jogos.

Logo, o que nos faz jogar handebol não deve ser apenas jogar handebol, ou mesmo vivenciar de jogos de bolas com as mãos, mas sim ter acesso a uma gama enorme de brincadeiras populares, adaptadas de modalidades esportivas formais, jogos reduzidos e outras formas de jogos, que possibilitam que as ações vividas, circunstanciadas no ambiente de jogo, sejam transferidas para o handebol.

A iniciação da esportiva, portanto, jogar diversas manifestações de jogos irá proporcionar que novos possíveis sejam assimilados pelo jovem jogador, mesmo um jogo de bobinho com os pés poderá criar emergências que se adaptem ao jogo de handebol.

Dessa forma, sob um ponto de vista onto-histórico, pode-se concluir que a visão filo-histórica ganha muita importância, pois o jogo de handebol não surgiu pronto, como demonstra os estudos históricos evolutivos da modalidade ao longo de todo seu processo de desenvolvimento até sua esportivização.

Assim, sob um paradigma emergente, ensinar handebol trás consigo toda a importância que as várias manifestações de jogos possíveis de serem exploradas mostram enquanto elementos que contém habilidades (motoras e lógicas) a serem transferidas para o handebol.

Ao pensarmos na iniciação (8-12 anos), ensinar até mesmo outros jogos, cuja lógica do jogo nem mesmo se aproxime com o handebol (o próprio bobinho com os pés ou a queimada – que apesar de ter muitas semelhanças gestuais, ao se observar a finalidade do arremesso da queimada, verifica-se a intenção em acertar alguém, enquanto que no caso do handebol a finalização visa impedir que o goleiro pegue a bola, logo, lógicas diferentes – entre outros jogos).

Quando um jovem jogador passa a integrar projetos de especialização, a lógica dos jogos deve começar a centralizar-se naquilo que o handebol, enquanto um jogo coletivo de bolas com as mãos esportivizado possui em sua lógica de desenvolvimento.

Os jogos devem se parecer com handebol, mas não precisam ser exclusivamente o handebol.

Porém, em ambas as etapas, jogar handebol sempre é importante, pois ele não pode ser esquecido nunca no seu processo de ensino-aprendizagem.

Logo, a história do handebol sob o ponto onto-histórico, pautado em novas tendências, mostra-se como um processo rico de possibilidades a serem exploradas, que dá grande valor ao desenvolvimento histórico do handebol através de seus jogos ancestrais – e mesmo outros jogos de outras famílias.

Dessa forma, ensinar handebol é muito mais do que ensinar apenas handebol, mas sim, ensinar também o handebol.

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46 pensamentos sobre “Uma Possível História do Handebol

  1. acho legal adoroooooooooooooooooo issooooooooooo leva essa com voceeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeis

  2. achei o maximo isso o handboooooooooooooool e a melhor coisa do muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuundo leva essa ondaaaaaaaaaaaaaaa

  3. Mucho locooooooooo adoreiiiiiiiii agora saquei como é o hand
    adorei No futuro vo ser proofissional de hand (zueraaaaa)

    ==]

  4. Quem nao gostou da história do handebol escrita por “Lucas Leonardo” , é porque tem inveja do trabalho escrito por Lucas, e se dane tambem quem acha ruim, por que nao vai fazer um melhor….faça e expõe em um site melhor… troxas quem nao gostou, invejosos….Parabens Lucas pelo seu trabalho.

  5. se vcs ñ gostaram vai achar outro, ou então FAÇA outro melhor!!!!!!ai que chato a pessoa rechama reclama mas porque ela ñ faz melhor odeio pessoa assim!!aff

    Mas amei seu trabalho PARABÉNS!!Lucas leonardo é SHOW!!!!

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